5º Congresso Florestal Nacional

Conclusões

(Versão preliminar)

 

Enquadramento

O tema orientador do 5º CFN foi “a Floresta e as Gentes”.

A floresta é um recurso natural renovável, e a sociedade reconhece-o cada vez mais como um ecossistema de primeira importância para a produção de bens e a prestação de serviços.

Aliás, esta forma de a sociedade encarar a floresta tem vindo a evoluir de uma percepção essencialmente utilitária da primeira metade do século XX (produção de bens), para uma percepção mais ecológica e orgânica nas últimas décadas (prestação de serviços).

Estas formas de sentir a floresta não são no entanto incompatíveis, assegurando a floresta simultaneamente a satisfação dos proprietários florestais (que detêm mais de 85% da superfície florestal nacional) através da produção de bens que asseguram a sua manutenção e remuneram o património e o investimento, e da sociedade de carácter mais urbano (que constitui já uma maioria entre nós) através dos serviços que presta: directos, como as oportunidades de recreio, a paisagem, o contacto com a natureza, entre outros, e os indirectos como os cada vez mais valorizados armazenamento de carbono, biodiversidade, protecção do solo e qualidade do ar e da água, entre muitos outros também.

À medida que as sociedades se vão urbanizando e melhorando o nível de vida, a percepção da natureza e daquilo que ela lhes oferece assume um papel cada vez mais significativo no seu nível de satisfação pessoal. A floresta conjuga e proporciona ao mesmo tempo as sensações de grande proximidade com a natureza e de mistério e, integrando e marcando de forma indelével a paisagem, é inequivocamente um factor de atracção das populações cada vez mais urbanas e deficitárias no seu contacto com a natureza.

 

Conclusões gerais

Para que os espaços florestais possam concretizar as metas anteriormente referidas, torna-se necessário no entanto analisar e aprofundar aspectos relativos à desejada reforma estrutural do sector, nomeadamente no que se refere aos factores que mais marcam a actualidade florestal nacional: o despovoamento rural e os incêndios.

Sendo o primeiro incontornável, é imperiosa a criação de condições para que esse despovoamento e consequente abandono dos espaços rurais se constituam como factores de fomento e indução da alteração da estrutura fundiária.

Sendo o segundo passível de minimização principalmente através da gestão profissional do recurso, considerou-se absolutamente necessário no âmbito deste congresso:

 

Como considerações de carácter mais específico, chegou-se também neste congresso às seguintes conclusões:

 

Tema 1 - Silvicultura

A especial relevância da adopção de técnicas silvícolas correctamente suportadas no conhecimento técnico e científico disponível, na gestão dos povoamentos florestais e dos espaços silvestres;

A constatação da produção de novos conhecimentos com aplicabilidade directa à gestão florestal em numerosas áreas das ciências silvícolas, designadamente na multiplicação de plantas, na recuperação de áreas ardidas, no ordenamento silvopastoril, na caracterização e gestão das diversas componentes dos ecossistemas silvestres e nas técnicas de arborização e manutenção da fertilidade do solo;

O carácter prioritário da investigação e da experimentação na área das técnicas de exploração florestal e de recolha de outros produtos florestais, pelo impacte que tem na viabilidade económica das explorações;

A necessidade da fundamentação das opções do gestor florestal no conhecimento (e integração nas práticas silvícolas) das dinâmicas naturais dos ecossistemas florestais, como referência para uma melhor avaliação das funções desempenhadas pelas florestas no âmbito das alterações climáticas, da conservação da biodiversidade e da luta contra a desertificação;

 

Tema 2 – Inventário, Modelação e Gestão

A importância da participação pública nos processos de decisão associados à gestão florestal e ao ordenamento do território;

O impacte das medidas de política na qualidade da Paisagem, como uma base para a definição e adopção de medidas de política mais ajustadas à realidade local e regional e ao interesse público;

A necessidade de basear a preparação de planos de gestão florestal através de inventário florestal e da utilização de modelos de produção florestal para a simulação de alternativas de gestão;

A necessidade de recolha de informação, ao nível do inventário florestal (local, regional ou nacional), tendo em vista a definição de índices de biodiversidade, a quantificação de recursos não produtivos e a caracterização da utilização social da floresta;

A importância da utilização de modelos processuais e/ou híbridos para prever as consequências de cenários de alterações climáticas quer na produtividade, quer na distribuição das espécies;

O uso de novas tecnologias na transferência e gestão de informação entre proprietários e associações e organismos de gestão e decisão foi considerado como factor decisivo para o desenvolvimento de uma floresta competitiva e sustentável;

 

T3 – Fisiologia e Genética

A qualidade genética dos Materiais Florestais de Reprodução  e a aplicação de modernas práticas de gestão constituem o garante da sustentabilidade produtiva e ambiental das nossas florestas;

A manutenção da biodiversidade dos sistemas florestais, a longo prazo, depende do desenvolvimento de acções de conservação genética e de domesticação das espécies autóctones, arbustivas e de folhosas nobres, que devem ser implementadas através de programas de melhoramento genético com esse objectivo;

A divulgação e demonstração dos benefícios da utilização do material melhorado aos proprietários florestais é uma tarefa  prioritária do melhoramento  florestal tradicional, que deverá ser apoiado no aprofundamento do conhecimento dos processos fisiológicos, nas técnicas de genética molecular e na biotecnologia;

 

Tema 4 – Produtos Florestais

A necessidade de uma ligação mais estreita entre a produção e o uso final dos produtos florestais, uma vez que a motivação económica constitui ainda o maior estímulo à manutenção da actividade florestal;

A necessidade de uma maior diversificação do uso das espécies florestais autóctones para fazer frente à evolução das exigências dos mercados e combater as ofertas da concorrência externa;

 

Tema 5 – Protecção Florestal

A importância das medidas de ordenamento, da melhoria da estrutura florestal e da gestão profissional na prevenção de incêndios florestais e na redução da sua incidência;

A importância da profissionalização  de uma estrutura de primeira intervenção no combate aos incêndios em torno do conceito dos sapadores florestais;

A necessidade do desenvolvimento de  diferentes e novas metodologias na detecção e
monitorização de pragas e doenças, e na monitorização da dispersão de
patogéneos, nomeadamente através do uso de técnicas de detecção remota, do uso de semioquímicos (feromonas e cairomonas) e ainda do recurso a métodos de
biologia molecular na detecção de novas espécies ou estudo das populações.

A necessidade da aplicação atempada e adequada de medidas preventivas e de controlo, nomeadamente no combate da doença do nemátodo da madeira do pinheiro, na prevenção de surtos de escolitídeos após a ocorrência de incêndios, e ainda no controlo de insectos rizófagos antes da instalação de novos povoamentos de modo a prevenir a mortalidade das plantas jovens;

 

Tema 6 - Política

O futuro Plano Florestal Nacional deverá ser elaborado na base de um conceito evolutivo do planeamento florestal,  através de uma abordagem multifuncional dos espaços florestais consagrada na elaboração do Planos Regionais de Ordenamento Florestal (PROF’s) e tendo em atenção a tipologia e as expectativas dos proprietários florestais;

O envolvimento dos utilizadores é um factor chave para a definição das funcionalidades dos sistemas de informação de suporte à gestão, planeamento e ordenamento dos ecossistemas florestais;

A integração dos sistemas de gestão florestal nas organizações de produtores é crítico para o seu sucesso e utilização efectiva;

A necessidade de uma gestão profissionalizada da floresta como forma de atrair o investimento interno e externo para este importante sector da economia nacional;

A adopção de uma política fiscal específica para a actividade florestal, adaptada ao longo prazo do investimento e que considere externalidades não tangíveis da floresta, factores indutores de um novo ordenamento dos espaços rurais.